quinta-feira, 3 de maio de 2012

PAI UMA FORTALEZA NA ARTE DOS SENTIMENTOS.

Sábio é o Pai Que Conhece o Seu Próprio Filho
1BERTO DE ALMEIDA
Pai é pai. Era o que todos  ali diziam.  A cena aconteceu no mercado  público do bairro do Cristo. Não era dia de feira livre. Um filho que ajudava o pai na venda de quinquilharias naquele local , se esqueceu de tomar o seu “remédio controlado” e, segundo o pai, surtou.  No surto, para a tristeza dos presentes, viu no pai um inimigo a ser vencido.  Assistindo a tudo, confesso que sofri.
O filho,  um tipo atleta, aparentava  vinte e poucos anos; o pai, raquítico, aproximadamente sessenta e cinco anos.   O pai nem pode – não quis, todos perceberam – se defender. A boca sangrando, um olho roxo e um galo enorme na testa não esboçou quaisquer reações.  Poderia machucar o filho, diria depois.
E enquanto era atirado por cima das bancas vazias do mercado, pedia ao filho para ter cuidado.  Evitasse bater com a cabeça no chão ou parede.  Não caísse. “Calma, meu filho, calma! Você pode se machucar!” Tudo naquele tom que somente os pais sabem usar para aconselhar um filho querido. Chamaram a polícia e, em poucos minutos, a polícia chegou. O pai sangrava. E, com os olhos afogados em lágrimas, dizia aos policiais que “não tinha sido nada”. Que não machucassem (eles não machucaram) o filho.   Ele tomaria o remédio, e tudo ficaria bem.
O filho seria levado pelo policias ao posto de saúde mais próximo para tomar o “remédio controlado”.  Não esboçava mais nenhuma reação. O surto estava passando. O pai ficou aos prantos. Não era nada, não era nada, dizia aos policiais que levava o “seu menino” à viatura mais próxima.   Logo ele voltaria  ao normal.   Era um ótimo filho.  Estava acostumado.  A culpa era dele. Não devia ter esquecido o remédio do filho.  E mesmo por pouco tempo,  o tempo de tomar o remédio e esperar o remédio fazer o efeito, sentiria sua falta.
E enquanto um colega limpava o sangue de sua boca e descansava uma pedra de gelo na sua testa, o pai chorava.  Todos choravam. Mas somente o pai “chorava por fora”.  Pausa. Se for verdade mesmo que ser mãe é padecer no paraíso, naquele caso, ser pai foi morrer pouco a pouco sem que o filho soubesse que ele estava morrendo.  Senti pelos dois.

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