Sábio é o Pai Que Conhece o Seu Próprio Filho
1BERTO DE ALMEIDA
1BERTO DE ALMEIDA
Pai é pai. Era o que todos ali diziam. A cena aconteceu no mercado
público do bairro do Cristo. Não era dia de feira livre. Um filho que
ajudava o pai na venda de quinquilharias naquele local , se esqueceu de
tomar o seu “remédio controlado” e, segundo o pai, surtou. No surto,
para a tristeza dos presentes, viu no pai um inimigo a ser vencido.
Assistindo a tudo, confesso que sofri.
O filho, um tipo atleta, aparentava vinte e poucos anos; o pai,
raquítico, aproximadamente sessenta e cinco anos. O pai nem pode – não
quis, todos perceberam – se defender. A boca sangrando, um olho roxo e
um galo enorme na testa não esboçou quaisquer reações. Poderia machucar
o filho, diria depois.
E enquanto era atirado por cima das bancas vazias do mercado, pedia
ao filho para ter cuidado. Evitasse bater com a cabeça no chão ou
parede. Não caísse. “Calma, meu filho, calma! Você pode se machucar!”
Tudo naquele tom que somente os pais sabem usar para aconselhar um filho
querido. Chamaram a polícia e, em poucos minutos, a polícia chegou. O
pai sangrava. E, com os olhos afogados em lágrimas, dizia aos policiais
que “não tinha sido nada”. Que não machucassem (eles não machucaram) o
filho. Ele tomaria o remédio, e tudo ficaria bem.
O filho seria levado pelo policias ao posto de saúde mais próximo
para tomar o “remédio controlado”. Não esboçava mais nenhuma reação. O
surto estava passando. O pai ficou aos prantos. Não era nada, não era
nada, dizia aos policiais que levava o “seu menino” à viatura mais
próxima. Logo ele voltaria ao normal. Era um ótimo filho. Estava
acostumado. A culpa era dele. Não devia ter esquecido o remédio do
filho. E mesmo por pouco tempo, o tempo de tomar o remédio e esperar o
remédio fazer o efeito, sentiria sua falta.
E enquanto um colega limpava o sangue de sua boca e descansava uma
pedra de gelo na sua testa, o pai chorava. Todos choravam. Mas somente o
pai “chorava por fora”. Pausa. Se for verdade mesmo que ser mãe é
padecer no paraíso, naquele caso, ser pai foi morrer pouco a pouco sem
que o filho soubesse que ele estava morrendo. Senti pelos dois.









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