Na cadeia, Cachoeira come ‘quentinhas amigas’
Josias de Souza
Numa das centenas de escutas telefônicas que o levaram à cadeia,
Carlinhos Cachoeira trata dos interesses da Cial Comércio e Indústria de
Alimentos. A empresa brigava na Justiça para desbancar uma
concorrente, a Coral, no fornecimento de marmitas aos presos da cadeia
de Aparecida de Goiânia.
No dia 9 de outubro de 2011, Cachoeira conversa com personagem
identificado pela PF como Michel. A alturas tantas, o interlocutor
pergunta se a Cial pertencia ao bicheiro. “Não é minha não, rapaz”, ele responde. “É de amigos. É Cial. A nossa é a Cial.” Em dúvida, Michel indaga: Cial ou Coral? E Cachoeira, peremptório: “Não. É para ser a Cial. A Coral tem de levar ferro.”
Por uma dessas ironias que só o acaso é capaz de produzir, Cachoeira
tornou-se consumidor involuntário das quentinhas que tentou favorecer. A
Cial é uma das três fornecedoras de comida para os mais de 11 mil
presos da Papuda, a hospedaria carcerária em que se encontra abrigado o
bicheiro, em Brasília.
Os repórteres Murilo Ramos e Marcelo Rocha descobriram um detalhe que injeta no impensável um quê de inusitado. A
Cial é alvo, junto com outras 16 empresas, de uma investigação aberta
há quase dois meses pela Secretaria de Direito Econômico, órgão do
Ministério da Justiça.
Apura-se a suspeita de formação de cartel em contratos para o
fornecimento de marmitas em presídios geridos pelo governo do Rio. Os
indícios são vistosos: preços idênticos, ausência de competição e
ligações entre os participantes. A administração de Sérgio Cabral diz
não ter identificado malfeitos. A secretaria da pasta da Justiça entrou
na encrenca porque recebeu uma denúncia.
Dono da Cial, empresa sediada em Goiânia, Frederico Valente nega
participação no suposto cartel carioca. Quanto a Cachoeira, afirma que
não o conhece. Admite conhecer o ex-vereador tucano Wladimir Garcez. Um
dos presos da Operação Monte Carlo, Garcez também foi escutado nos
grampos da PF tratando dos interesses da Cial com Cachoeira. Valente
afirma que jamais pediu a Garcez que intercedesse em favor de sua
empresa.
Como no Cachoeiragate as ironias jorram em cascata, a Cial tem no seu rol de clientes também o Palácio do Planalto.
Fornece aos servidores do prédio onde despacha Dilma Rousseff lanches,
coquetéis e refeições variadas. Já faturou na Presidência, desde 2008,
R$ 27 milhões.
No governo do Distrito Federal, outro de seus clientes, a Cial corre o risco de ser classificada como “inidônea”.
Acusam-na de ter servido alimentos estragados e superfaturados a
pacientes de um hospital público de Brasília. O empresário Valente diz
que os problemas, “pontuais”, já foram sanados.
Degustador de vinhos caros e frequentador de bons e caros restaurantes,
Cachoeira poderia abrir uma brecha no seu direito constitucional de
permanecer calado para informar que gosto tem o repasto que mastiga no ‘Papuda’s Inn’.











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