Facção
paulista oferece ‘auxílio bélico’ e empréstimos de até R$ 5 mil para
ex-detentos
Polícia apreendeu documento que detalha como
organização criminosa ajuda integrantes do grupo
O Globo
SÃO PAULO - Os detalhes da criação de um
“banco de apoio dos irmão (sic)”, com direito a “auxílio bélico” e
ajuda financeira para “necessidades emergenciais” a ex-detentos da maior
facção criminosa brasileira, nascida nos presídios paulistas, constam de
arquivos da organização apreendidos pela Polícia Civil durante a crise de
segurança em São Paulo. Em sete páginas, o comando descreve o papel do banco
e como integrantes do grupo que estivessem nas ruas até seis meses depois de
sair de prisão poderiam obter armas e um crédito de até R$ 5 mil.
Para a polícia, o documento é uma das
evidências da complexidade e do grau de organização da facção que já se expandiu
para 21 estados, além do Distrito Federal, conforme relatório reservado da
Secretaria Nacional de Segurança Pública (Senasp), vinculada ao Ministério da
Justiça, revelado
neste domingo por O GLOBO.
Os documentos trazem detalhes da
contabilidade de setores do grupo que estão fora dos presídios. Há registro
em planilhas de despesas como chips de telefonia móvel, aluguel de ônibus e vans
para a vista de parentes de detentos às unidades prisionais, gasolina, venda de
cocaína, maconha, crack e até equipamentos como computadores e celulares.
“O crime fortalece o crime, é dando que se
recebe”, diz o documento que detalha o funcionamento do “banco de apoio”,
citando como objetivo da iniciativa “fortalecer aqueles irmãos que estão
totalmente descabelados saindo da prisão”.
Para obter auxílio financeiro ou armas, o
integrante deve buscar a “Sintonia da Rua” de sua região. Sintonia é como a
facção se refere aos setores de divisão de atribuições da organização. Em São
Paulo, há uma para cada uma das cinco regiões (Leste, Oeste, Sul, Norte e
Centro), além do ABC, Baixada e interior. Cada regional de fora de do estado
conta com um responsável pelas atividades na rua.
Na proposta da organização, para emprestar
uma “ferramenta” (arma) é analisado até o objetivo declarado. Quem pega
até R$ 5 mil emprestados tem 90 dias para pagar, sem precisar pagar juros. O
prazo para devolução da arma é de 30 dias. Empréstimos de valores maiores são
negociados caso a caso, por isso não constam da proposta do “banco”. Pelo menos
R$ 500 mil foram provisionados pela facção para colocar a iniciativa em
prática.
A facção alerta não admitir a prorrogação da
devolução das armas. A proposta explica que o “auxílio bélico” inclui
“todo tipo de material: fuzil, metralhadora, pistolas, granadas e
revólver”. É necessário devolver os itens em boas condições. “No caso
de infelicidade de perca (sic), a compreensão vai até o limite da
responsabilidade do irmão beneficiado”. Isso significa que a “Sintonia”
avaliará se a arma foi usada na situação informada e se a perda ocorreu durante
a ação. Nesses casos, o prazo para reposição é de um ano. Mesmo tempo para o
caso de ser preso e estar devendo dinheiro à facção. “O único retorno que a
família irá exigir será um maior comprometimento dentro das responsabilidades já
existentes na organização”, explica a proposta.
Segundo o relatório da Senasp, a facção
movimenta pelo menos R$ 72 milhões anuais com o comércio de drogas e
mensalidades pagas por 13 mil integrantes, dos quais 6 mil estão presos em São
Paulo, 2 mil nas ruas e 5 mil em outros estados.









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