sexta-feira, 16 de novembro de 2012

OS ESTRAGOS DA ESTIAGEM: ANIMAIS E AVES ESTÃO MORREMDO DE SEDE.

“Triste partida”

Por José Antônio
A seca é braba. A paisagem na zona rural do sertão é triste e desoladora. O sol nunca esteve tão inclemente. Os juazeiros começam timidamente a se vestir e os pés de cajarana dos tabuleiros ainda continuam desfolhados. Os angicos e as catingueiras agonizam e choram pedindo água e as mangueiras, oiticicas, marizeiros e cajueiros reinam em terras de baixio e de beira de rios e riachos como únicas árvores que possuem frondosas sombras. 
As invasões às cidades e os saques, fartos no passado, aos armazéns do governo, às feiras livres, aos estoques de merenda das escolas e ao comércio felizmente desapareceram do cenário do sertão, mas tenho certeza se o governo tivesse estoque de ração animal em seus armazéns há muito tempo que haviam sido saqueados, num sonho utópico, pelas vacas magras e famintas do sertão.
Nunca o comércio registrou vendas de ração animal igual ao deste ano e apareceu um novo tipo de negócio que tem favorecido a quem vende e principalmente aos pequenos e médios pecuaristas: a venda de ração verde, principalmente de pés de milho e sorgo, passados na forrageira, oriunda do Ceará e do Rio Grande do Norte, trazidas em caminhões graneleiros e vendidas ao preço de trinta e cinco centavos o quilo e só nos últimos dias foram comercializadas, só em Cajazeiras, 120 toneladas e já tem encomendadas mais de 500. Esta ração tem sido a salvação de muitos criadores, associada aos 200 quilos que o governo distribui a cada 15 dias.
O milho que o governo federal está vendendo parece uma miragem, porque tem criador que está com uma ficha na mão cujo número só poderá ser atendido no ano de 2013, além de que nenhum criador está satisfeito com a quantidade estipulada
A ração que o governo do estado vai vender com preço subsidiado, que é o farelo de soja e a torta de algodão, começou a chegar aos armazéns do Parque de Exposição de Cajazeiras e nesta segunda-feira, dia 19, os criadores cadastrados terão direito a comprar uma quantia equivalente a 10% do total avaliado pela comissão encarregada deste setor, conforme a quantidade de animais de cada propriedade. Por exemplo: quem tem direito a 4.800 quilos, vai poder comprar 480 quilos. Não era o que se esperava, mas é melhor do que nada. Não se sabe ainda em que intervalo o criador vai ter direito as estes 10% de ração, se a cada 15 dias ou uma vez por mês.
Uma criadora de gado me dizia esta semana: se não chover até dezembro vai ser o fim de tudo, vai acabar a água e o restinho do pasto seco. Aí me lembrei da letra da música de Luis Gonzaga, “Triste partida”, de autoria do imortal Patativa do Assaré, onde lamenta a não chegada das chuvas. Algumas estrofes:

 
“Meu Deus, meu Deus
Setembro passou
Outubro e Novembro
Já tamo em Dezembro...”

A treze do mês
Ele fez experiênça
Perdeu sua crença
Nas pedras de sal,
Meu Deus, meu Deus
Mas noutra esperança
Com gosto se agarra
Pensando na barra
Do alegre Natal

Rompeu-se o Natal
Porém barra não veio
O sol bem vermeio
Nasceu muito além
Meu Deus, meu Deus
Na copa da mata
Buzina a cigarra
Ninguém vê a barra
Pois barra não tem

Sem chuva na terra
Descamba Janeiro,
Depois fevereiro
E o mesmo verão
Meu Deus, meu Deus
Entonce o nortista
Pensando consigo
Diz: "isso é castigo
não chove mais não".
Mas o sertanejo tem plantado no coração a esperança que as chuvas virão para que possa salvar o que vai restar de seu rebanho e o libertar da ração do governo.

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