Justiça
Caso Bruno: o silêncio das testemunhas
Morte de Sérgio Rosa Sales, primo do goleiro que fez a reconstituição dos dias de Eliza Samudio no sítio, calou o jovem Jorge Luiz, que ajudou a levar a jovem para a morte. Julgamento que começa nesta segunda-feira terá depoimento de assistente social e vídeo gravado pela testemunha assassinada
Leslie Leitão
Veja
Marcelo Theobald / O Globo
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Marcelo Theobald / O Globo

Eliza Samudio, de 25 anos, ex-amante do goleiro Bruno, está desaparecida desde o início de junho
O capítulo final da trama iniciada em junho de 2010, quando desapareceu a jovem Eliza Samudio, começa a ser escrito às 9h desta segunda-feira. O goleiro Bruno Fernandes, acusado de ser o mentor do sequestro e da morte da jovem, com quem teve um filho, vai a júri popular em Contagem, na região metropolitana de Belo Horizonte. O julgamento tem todas as características e a carga dramática dos casos que param o país por algumas horas, como se viu nas semanas seguintes ao crime, à medida que eram revelados detalhes macabros do sofrimento imposto à ex-amante de um ídolo do futebol. O crime levou Bruno, um ídolo do esporte, capitão do Flamengo, time de maior torcida do Brasil, a ser chamado de “monstro”.
Todos os passos do julgamento serão acompanhados pela reportagem do site de VEJA. O embate entre defesa e acusação que se verá em Contagem tem alguns elementos a mais de dificuldade para a acusação, comandada pelo promotor Henry Wagner Vasconcelos de Castro. A primeiradelas é o fato de o corpo de Eliza nunca ter sido encontrado. E entre as versões mais aterradoras para esse sumiço está a de que o ex-policial Marcos Aparecido dos Santos, o Bola, o teria dado para ser devorado por cães da raça rottweiler. Asegunda, o medo que calou as testemunhas ou, no mínimo, levou envolvidos no caso a mudar suas versões em depoimento – sempre no sentido de amenizar a culpa dos acusados.
O silêncio era uma estratégia da defesa desde o início. Era esta a orientação do advogado Ércio Quaresma, que assumiu o caso tão logo Bruno passou a figurar como suspeito. À medida que o cerco se fechou sobre a turma de Bruno, conhecidos pelas festas de arromba no sítio, a polícia conseguiu identificar funcionários, parentes e comparsas que certamente tinham informações importantes para esclarecer o destino de Eliza e as responsabilidades sobre o desaparecimento. Houve poucos e importantes avanços. O principal deles, de dois primos do goleiro: Sérgio Rosa Sales e Jorge Luiz Lisboa Rosa, que na época era menor de idade e não teve o nome revelado.
AE

Sérgio Rosa Sales é conduzido por policiais da carceragem para a sala onde acontece a acareação, em Belo Horizonte.
Jorge Luiz, que participou do transporte de Eliza até a casa do ex-policial, onde ela foi morta, segundo a polícia, levou os investigadores ao local, e fez uma rica descrição do espaço antes de chegar à casa. Foi a partir dele que a Polícia Civil de Minas Gerais passou a ter certeza de que Eliza fora assassinada. Também foi dele o relato que tornou impossível para o goleiro dizer que “não sabia” o que se passava com Eliza.
Jorge não estará presente no julgamento. Como era menor, foi considerado culpado pelo Juizado de Menores de Minas Gerais e cumpriu dois anos de medida socioeducativa. Em setembro, ao ganhar a liberdade, foi incluído no Programa de Proteção a Jovens e Adolescentes Vítimas de Ameaças de Morte (PPCam), por dizer ter medo de morrer. O Ministério Público chegou a pedir à juíza Marixa Fabiane Rodrigues que Jorge fosse interrogado por videoconferência – ele está fora de Minas. Mas o pedido foi negado. Sem ele, o interrogatório mais contundente no sentido de impressionar os jurados, que precisam se convencer de que Eliza foi assassinada, está perdido.
Como complicou o primo e os demais acusados, Jorge Luiz sempre teve razões para não se sentir seguro. O medo aumentou este ano, como conta a mãe do rapaz, Simone Lisboa. Em agosto, ela recebeu um telefonema em casa, na cidade de São Gonçalo, no Rio, para ir a Minas Gerais, onde o filho, agora com 19 anos, terminava de cumprir a medida de internação determinada pela Justiça. Jorge Luiz estava apavorado. Já sabia da morte de seu primo Sérgio Rosa Sales, a outra testemunha importante do caso, baleado seis vezes em circunstâncias nebulosas, por um traficante da região metropolitana de Belo Horizonte – supostamente, por ciúmes.
A versão apresentada pela polícia para elucidar o caso não convenceu o rapaz – e, estranhamente, parece ter convencido experientes investigadores da Polícia Civil mineira. Sérgio também complicou o goleiro em seus depoimentos, e tinha medo. Mas foi morto por ter olhado para uma mulher que passou pela rua onde morava com os pais, no bairro Minaslândia.
"Pode ter sido um crime passional, mas também pode não ter sido. Ele me disse: mãe, não vou pagar pra ver. Estava assustado com aquilo e me disse que iria embora para tentar viver uma nova vida longe dali. Nunca mais tive notícias", diz a mãe.
O Programa de Proteção a Jovens e Adolescentes Vítimas de Ameaças de Morte (PPCam) é destinado a preservar a integridade de quem está em perigo, sem compromisso com o comparecimento à Justiça. "Para nós, o que importa é a proteção da vítima. Não é um programa no qual a testemunha tem o compromisso de colaborar com qualquer processo", afirma o diretor do programa, Diego Valadares. O programa é ligado à Secretaria de Estado de Defesa dos Direitos Humanos.
O promotor Henry Wagner não concorda com a forma encontrada para tirar Jorge Luiz do caso. "Quem quer matá-lo? Quem pode estar atentando contra a vida dele? É o Ministério Público? Não. É a imprensa? Não. Então, quem?", pergunta, apontando para o óbvio: só os acusados pela morte de Eliza têm “motivação” para colocar em risco a vida da testemunha. Apesar disso, os advogados de defesa também pediram à Justiça que Jorge Luiz fosse ouvido – e não há como dizer se a estratégia foi jogo de cena. O objetivo, alegaram, era o de obriga-lo a explicar as acusações “infundadas” contra Bruno e seus amigos.
Jorge prestou pelo menos outros três depoimentos até que, no último deles, na Vara da Infância, resolveu tentar ajudar Bruno, reduzindo a participação do primo no crime. O MP, no entanto, não tem dúvidas de que a primeira versão apresentada é a mais confiável. Todas estão no processo, e acusação e defesa tentarão jogar com elas diante dos jurados









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