quinta-feira, 18 de outubro de 2012

GILDEMAR PONTES QUESTIONA CARACTERÍSTICAS ATRIBUÍDA AOS PROFESORES

Ser professor

Por Gildemar Pontes
gilpoeta@yahoo.it
No Diário do Sertão
Dia desses, fui convidado para uma dessas palestras motivacionais da Educação, na Nona Regional de Ensino de Cajazeiras. Estavam lá muitos colegas, ex-alunos e diretores de escolas, além do corpo burocrático da Regional, menos a chefe que deveria estar ocupada assinando papéis.
Antes de começar minha fala assisti meio atoleimado um power point sobre o professor. Não era propriamente uma homenagem, aliás, era uma desonra para os que, como eu, ganham o pão como professor. E vi coisas do tipo: “professor vive na corda bamba”, “professor é um sacerdócio”, “professor trabalha os três expedientes e mostra que é superior às adversidades” etc. Não comentarei mais que estas três falsas ideias que se atribuem ao professor.
Primeiramente, quem vive na corda bamba é um acrobata de circo, que sobre a corda faz suas piruetas para prender a atenção do público. Jamais uma comparação destas deveria ser atribuída a um professor. Não podemos ter os alunos (público) atentos às aulas de um profissional da educação como se fosse ele um artista circense, responsável pela transformação do conhecimento através de um número de circo.
Na segunda frase realçada acima, creio que educação não é uma crença, para que o professor seja um sumo sacerdote que irá pregar conhecimentos para uma tabula rasa, como assim fizeram os jesuítas ao catequizar os índios. Não há uma relação de fé em educação, pois precisaria de um Deus para se professar a fé e um templo para render-lhe homenagem. Não, a relação da profissão com o sacerdócio é mais uma forma de desfocar o papel do professor.
Por fim, na última frase, vem a grande desvalorização do trabalho. Se para ganhar razoavelmente nas condições de empobrecimento da profissão no Brasil o professor precisa trabalhar três expedientes, este autômato da educação jamais poderá se destacar como um exemplo para a profissão, ao contrário, será cada vez mais humilhado pelas deficiências que fatalmente irá expor diante do acúmulo de trabalho e de obrigações que o prenderá.
E aí dei minha palestra discordando de cara com aquela apresentação que prepararam para o professor e questionei com algumas pessoas sobre os destinos de uma profissão tão honrosa e tão maltratada pelos políticos e pelos professores.

Quem é responsável pela ideia de que professor é isso que vimos nas frases produzidas por educadores que integram um sistema educacional desta natureza? Quem são esses profissionais que aplaudem essas injúrias sem o senso crítico que deveria estar na base da sua concepção de mundo? Qual escola resultará do trabalho desses profissionais? Que argumento se dá a alguém para que seja um professor? Que tipo de profissional aceita isto?
Com a palavra os colegas educadores e professores, já que os políticos que temos adoram ter uma categoria tão devota, tão equilibrista e tão esforçada, cuidando do futuro dos nossos eleitores.

Gildemar Pontes - Escritor, Professor de Literatura da UFCG, Coordenador do Projeto Mãos à Arte. Editor da Revista Acauã,  Tem 16 livros publicados, já foi traduzido para o Espanhol e publicado em Cuba.

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