Ser professor
gilpoeta@yahoo.it
No Diário do Sertão
Dia desses, fui convidado para uma dessas palestras motivacionais da Educação, na Nona Regional de Ensino de Cajazeiras.
Estavam lá muitos colegas, ex-alunos e diretores de escolas, além do
corpo burocrático da Regional, menos a chefe que deveria estar ocupada
assinando papéis.
Antes de começar minha fala assisti meio atoleimado um power point sobre o professor. Não era propriamente uma homenagem, aliás, era uma desonra para os que, como eu, ganham o pão como professor. E vi coisas do tipo: “professor
vive na corda bamba”, “professor é um sacerdócio”, “professor trabalha
os três expedientes e mostra que é superior às adversidades” etc. Não comentarei mais que estas três falsas ideias que se atribuem ao professor.
Primeiramente, quem vive na corda bamba é um acrobata de circo, que sobre a corda faz suas piruetas para prender a atenção do público. Jamais uma comparação destas deveria ser atribuída a um professor.
Não podemos ter os alunos (público) atentos às aulas de um profissional
da educação como se fosse ele um artista circense, responsável pela
transformação do conhecimento através de um número de circo.
Na segunda frase realçada acima, creio que educação não é uma crença,
para que o professor seja um sumo sacerdote que irá pregar
conhecimentos para uma tabula rasa, como assim fizeram os jesuítas ao
catequizar os índios. Não há uma relação de fé em educação, pois
precisaria de um Deus para se professar a fé e um templo para render-lhe
homenagem. Não, a relação da profissão com o sacerdócio é mais uma forma de desfocar o papel do professor.
Por fim, na última frase, vem a grande desvalorização do trabalho.
Se para ganhar razoavelmente nas condições de empobrecimento da
profissão no Brasil o professor precisa trabalhar três expedientes, este
autômato da educação jamais poderá se destacar como um exemplo para a
profissão, ao contrário, será cada vez mais humilhado pelas deficiências
que fatalmente irá expor diante do acúmulo de trabalho e de obrigações
que o prenderá.
E aí dei minha palestra discordando de cara com aquela apresentação
que prepararam para o professor e questionei com algumas pessoas sobre
os destinos de uma profissão tão honrosa e tão maltratada pelos
políticos e pelos professores.
Quem é responsável pela ideia de que professor é isso que vimos nas
frases produzidas por educadores que integram um sistema educacional
desta natureza? Quem são esses profissionais que aplaudem essas
injúrias sem o senso crítico que deveria estar na base da sua concepção
de mundo? Qual escola resultará do trabalho desses profissionais? Que
argumento se dá a alguém para que seja um professor? Que tipo de profissional aceita isto?
Com a palavra os colegas educadores e professores, já que os
políticos que temos adoram ter uma categoria tão devota, tão
equilibrista e tão esforçada, cuidando do futuro dos nossos eleitores.












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