Rubens Ricupero
Folha de São Paulo
Nunca em quase 200 anos de independência teve um processo judicial um impacto formador da consciência cívica como o do mensalão. Até agora, o que fazia falta entre nós não era a corrupção em larga escala, mas um processo desapaixonado para julgá-la.
Acusações de corrupção se encontram na raiz tanto do suicídio de
Vargas como do impeachment de Collor, assim como de escândalos sem conta
de ministros, parlamentares, governadores. Esses episódios deixavam o
país frustrado e desesperançado, pois o desfecho político acabava por
impedir a cabal avaliação judiciária dos fatos.
Pela primeira vez, estamos tendo um contraditório de acusação e defesa,
de exame minucioso de provas, de discussão de pontos de vista distintos
em matéria de fatos e da aplicação das leis. Fora os pecados veniais do
anacronismo linguístico e do exibicionismo das citações, há que
reconhecer a qualidade exemplar dos procedimentos.
É alto o nível do debate e respeitoso o dos desacordos, a dignidade e
a compostura têm prevalecido quase sempre, não se percebendo sombra de
sectarismo político-partidário.
A paixão, quando aparece, é a da indignação da consciência moral e jurídica diante da enormidade dos delitos. A serenidade e brandura do presidente Ayres Britto têm muito a ver com a geração desse efeito calmante e tranquilizador.
Creio que os cidadãos, maltratados pelos guardiões das instituições,
esperavam pouco ou nada e se surpreenderam pela firmeza e o equilíbrio
da maioria dos juízes. A condenação do ex-presidente da Câmara,
segunda pessoa na hierarquia da República, não tem precedentes no Brasil
e certamente merece a qualificação de histórica.
No início da operação Mãos Limpas, Norberto Bobbio explicou porque a corrupção era um câncer que destruía a democracia.
Não se baseando no medo, o regime democrático pressupõe a confiança dos
cidadãos entre si e, sobretudo, nos governantes e nas instituições.
O cidadão, que tem o direito de saber tudo, de repente descobre,
chocado, que não sabe nada, que lhe escondem o que se passa entre as
quatro paredes do poder. Perde então a confiança nas instituições e nos homens que as profanam, começa a descrer sistematicamente de tudo.
A fim de reconstruir a confiança, é preciso que a transparência de um
processo revele o escondido aos olhos de todos e submeta as ações
tenebrosas ao efeito purificador da luz do sol.
O cidadão precisa tomar conhecimento dos fatos que lhe escamotearam; a
responsabilidade por esses fatos deve passar por apuração cuidadosa.
Tudo tem de culminar pela necessária imposição de pena justa que
restabeleça os valores da sociedade violados e esteja em proporção com a
gravidade das violações.
Nesse sentido, um grande processo público transmitido ao vivo se parece ao papel que desempenhava a tragédia na sociedade grega.
A intensidade dos sentimentos de indignação e revolta despertados
pela narrativa só pode ser sublimada pela justiça do julgamento, nunca
pela violência da vingança. Talvez na sua melhor hora, o Supremo
Tribunal está proporcionando à população humilhada e ofendida essa
catarse purificadora da consciência e restauradora dos valores morais.
Rubens Ricupero,
diretor da Faculdade de Economia da Faap, foi secretário-geral da
Unctad (Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento),
ministro da Amazônia e do Meio Ambiente, ministro da Fazenda (governo
Itamar), embaixador em Genebra, Washington e Roma. Escreve
quinzenalmente, aos domingos, na versão impressa de "Mercado".










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