terça-feira, 4 de setembro de 2012

O FOLCLORE POLÍTICO POR SEBASTIÃO NERY

A culpa não foi do jumento

Sebastião Nery
No Tribuna de Imprensa
A Bahia foi toda ao aeroporto ainda 2 de Julho, de Salvador, esperar seu primeiro cardeal, naquela manhã ensolarada de janeiro de 1953, dom Augusto Álvaro da Silva, com seu nome de verso (também sou Augusto por causa dele), alto, elegante, asceta, magistral orador sacro.
Chegou como um príncipe, com a batina vermelha e o barrete rubro de cardeal. Pernambucano de Arcoverde, era arcebispo primaz de Salvador desde 1924, bispo no interior desde 1911. Poeta primoroso, escondia-se nos seus livros de poesias atrás do discreto nome de Carlos Neto.
Na véspera da chegada dele a Salvador, um jumento abaianado atravessava em paz a praça Castro Alves, quem sabe para ouvir libertários poemas ao pôr-do-sol sobre Itaparica, bem em frente ao jornal A Tarde, quando foi atropelado e morto por um táxi, cujo motorista também morreu.
No dia seguinte, o Diário da Bahia, dirigido pelo talentoso Tarsilo Vieira de Melo, deputado federal pela Bahia (depois líder de Juscelino na Câmara), que não era nenhum piedoso cristão, mas era um democrata raça pura, pôs na primeira página duas fotos enormes: a de dom Augusto, com toda a pompa cardinalícia, e a do jumento, estirado morto na praça.
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DOM AUGUSTO
Mas, na oficina do jornal, por azar ou tentação de satanás, inadvertidamente trocaram as legendas das duas fotos. Embaixo da foto do jumento, estava escrito: “O cardeal dos baianos”. Embaixo da foto de dom Augusto, escreveram: “Este jumento envergonha a Bahia.
Vieira de Melo ficou desolado. Embora não comandasse mais o dia-a-dia da redação, por ser deputado, o diretor jornal era ele. Como explicar que não foi a propósito, em um jornal dirigido por um quase anárquico e com a redação “cheia de comunistas”, como acusava a anacrônica UDN?
Anos depois, dom Augusto já doente (morreu em 1964), aposentado da arquidiocese, fui visitá-lo numa manhã de domingo, e a mágoa continuava:
- Sebastião, não me venha dizer que a culpa foi do jumento. Aquilo foi uma maldade bem própria de vocês jornalistas.
Mesmo os santos e sábios cometem injustiças.
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