segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

SENTA AÍ QUE LA VÉM A ESTÓRIA:OS VELHACOS


Parrá foi e é o único ser vivente neste mundo que conseguiu enganar cobrador sem precisar se esconder. Dizem os mais velhos que estava ele dormindo na sala da sua casa, quando bateu na porta um cobrador, procurando-o:
-Seu Parrá está? – perguntou o cobrador, e Parra, espreguiçando-se, respondeu sonolento:
-Deu uma saidinha, mas não demora”. E mandou o cobrador entrar, sentar, ofereceu água, cafezinho, todo tipo de gentileza, até que ele, cansado de tanto esperar, foi embora dando muito obrigado ao seu anfitrião.
Houve um tempo em que os cobradores faziam fila a minha procura, em A União. Aliás, em termos de romarias “cobradorianas” eu só perdia para Carlos Aranha, eterno freguës dessa turma por causa dos fracassos de bilheteria dos shows por ele produzidos.
Numa dessas vezes, o folgado entrou de redação adentro e, chegando na editoria, interpelou Abmael Morais, que fazia a sesta refestelado na cadeira de Agnaldo Almeida:
-O Senhor Sebastião Lucena?
-Sou eu mesmo. Diga! -, respondeu Abmael. E quando o sujeito começou a falar da minha dívida, o baixinho invocado do Rio Grande do Norte assanhou o bigode e com aquela autoridade de coronel das forças armadas, discursou:
-Em primeiro lugar, quero saber quem lhe deu autorização para entrar aqui. Em segundo, dê meia volta e vá embora, antes que eu mande botá-lo na cadeia. E em terceiro, num acha que ta demorando demais não?
O cabra desapareceu na curva do Bompreço e nunca mais apareceude novo.
Enquanto Abmael intimidava pelo tamanho do bigode, o radialista Carlos Abrantes vencia o cobrador pelo pantim.
O pobre já havia gastado a sola de dois sapatos, tentando emboscar Abrantes para receber dívida de bar. Abrantes sempre se escondendo, sempre se amoitando para não ter que enfrentá-lo.
Mas teve aquela manhã, no campus da UFPB, onde Abrantes cursava Direito, em que todos os becos e salas se fecharam. Viram-se frente a frente, no campo aberto, e o cobrador, de sorriso largo, achou que chegara a hora da onça beber água. Não tendo como escapar, Carlos Abrantes apelou para a dramaturgia.
Bateu forte no peito, com a mão aberta, deu um berro de dor e caiu na grama estrebuchando, babando pelo canto da boca, dando pinotes feito cabrito no matadouro, fazendo com que mocinhas e rapazes, apreensivos e preocupados, formassem uma roda para assistir a sua derradeira passagem por essa vida. E quanto mais o tempo passava, mais Abrantes se debatia, uivava, babava, fungava. Vendo aquele quadro, o cobrador disse um “Vote!”, deu meia volta e foi embora pegar seu fusquinha Fafá de Belém antes que alguém o acusasse da morte subida daquele jovem.
Carlos, que se debatia com um canto do olho aberto, tão logo viu o cobrador sumir, acalmou-se, levantou-se, bateu a poeira da bunda e foi correndo ainda a tempo de assistir a aula de Direito Constitucional do professor Luiz Augusto Crispim.

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