Kit básico das consequências da volta de Renan
O Senado caminha há anos em direção a um metafórico fundo do poço.
Já roçou várias vezes as profundezas. Mas vai adiando, brasileiramente,
o seu encontro com a fundura definitiva. Quando se imagina que a base
do poço foi finalmente tocada, um novo escárnio irrompe em cena para
informar que o percurso rumo ao insondável terá novas escalas.
Ao fundo do poço de Jáder ‘Sudam’ Barbalho sobreveio o fundo do poço
de Antonio Carlos ‘Violação do Painel’ Magalhães, que foi seguido pelo
fundo do poço de Renan ‘Mesada de Empreiteiro’ Calheiros, que foi
obscurecido pelo fundo do poço de José ‘Atos Secretos’ Sarney, agora
suplantado pelo fundo do poço de Renan ‘Denúncia no Supremo’ Calheiros,
que todo mundo já imagina aonde vai dar.
O que está em jogo na volta de Renan ao comando do Senado é a exumação de um escândalo enterrado vivo em 2007.
Naquele ano, Renan renunciou à presidência para salvar o mandato. O
plenário engoliu a versão de que o dinheiro entregue pelo lobista de uma
a empreiteira à ex-amante do senador viera da venda de gado. E os
brasileiros foram convidados a fazer como a maioria dos senadores: se
fingir de bobos pelo bem da República.
A inevitabilidade de um novo mergulho do Senado rumo ao fundo do poço
é proporcional à quantidade de papel produzido pela Polícia Federal,
processado pela Procuradoria da República e estocado no STF –coisa de 43
volumes. Para facilitar a vida da plateia, vai abaixo um kit de conhecimentos básicos sobre o que vem por aí:
1. Supremo suspense: Com uma interrogação na presidência, o
Senado torna-se escravo do suspense pelos próximos dois anos. Cedo ou
tarde, a denúncia procolocada pelo procurador-geral Roberto Gurgel há
uma semana chegará ao plenário do STF. O relator é o ministro
Ricardo Lewandowski. Se a maioria das onze togas do Supremo der razão a
Gurgel –a acusação é “extremamente consistente”— Renan migrará do
purgatório para o inferno. Supondo-se que isso ocorra antes de fevereiro
de 2015, o Senado viverá a inédita situação de ser presidido por um réu
em processo criminal.
2. Rotina de açougue: protegida sob o manto diáfano do segredo de Justiça, a denúncia do procurador-geral começa a escalar as manchetes. Nela, a versão de Renan para a mesada à ex-amante Mônica Veloso (foto) é virada do avesso pela Polícia Federal.
O dinheiro não viera do lobista da Mendes Júnior, mas da venda de gado,
alegara o senador há cinco anos. Negócios de R$ 1,9 milhão entre 2003 e
2006.
A PF verificou que há logotipos suspeitos entre os supostos
compradores de carne do senador. Os donos dos estabelecimentos,
moradores de periferia, tem a aparência de laranjas. A escrituração carrega notas frias. Tudo isso –y otras cositas más– ganhará as páginas aos poucos. Quando der por si, um Renan com a autoridade fatiada estará usando a estrutura do Senado para se defender. O filme é conhecido. E o final não é feliz.
3. Agenda secreta: Ganha um boi quem souber informar qual é o plano de voo de Renan.
Na noite passada, durante a reunião fechada em que a bancada do PMDB
aclamou-o como seu candidato, o colega Roberto Requião (PR) animou-se a
perguntar o que diabos Renan planeja fazer de sua nova presidência. E
ele: criar uma secretaria de transparência, aprovar um novo pacto
federativo, tirar da gaveta a reforma administrativa do Senado e brecar
tentativas de regulação da mídia.
Chamados a reencenar o papel de bobos convenientes, os senadores logo se
darão conta de que a pseudo-agenda de Renan terá de atravessar uma
boiada de dúvidas. Enquanto o Supremo não se pronunciar sobre a denúncia
da Procuradoria, o gado do inquérito transitará pelo gabinete da
presidência, pelo salão azul, pelo plenário do Senado. Pode-se
convencionar que as reses não estão ali. Mas não há como impedir os
mugidos.
4. Efeito 2014: reforçado pela denúncia da Procuradoria, o cheiro de encrenca transformou em temeridade o romance da oposição com Renan. No PSDB, o líder Alvaro Dias, que se opunha sozinho, ganhou a luxuosa companhia do presidenciável Aécio Neves. E o tucanato esconjurou o favorito do PMDB em reunião de sua bancada.
Para não ficar atrás, o neopresidenciável Eduardo Campos também empurrou o seu PSB para fora da canoa oficial.
Com isso, Renan foi, por assim dizer, acomodado no colo de Dilma
Rousseff. Tucanos e socialistas fizeram juras de fidelidade a Pedro
Taques (PDT-MT), o antagonista de Renan. Na sombra da votação secreta,
as duas legendas não entregarão a totalidade dos seus 16 votos. Ainda
assim, poderão apontar na direção do Planalto quando a crise estourar.
5. Linha sucessória: A eleição de Renan para presidir o
Senado e de Henrique Eduardo Alves para comandar a Câmara converte
Dilma numa espécie de ilha cercada de PMDB por todos os lados. Um
ministro petista resume a cena em timbre de piada: antes, brincávamos
entre nós dizendo que, se alguma coisa acontecesse com a Dilma, teríamos
de ordenar aos seguranças que dessem cabo do vice-presidente. Michel
Temer na presidência era impensável. Hoje, essa providência seria
temerária. Inviabilizada a posse do impensável, assumiria o lamentável,
cujo sucessor passaria a ser o inadmissível. Melhor rezar pelo Temer.
6. Posição de cócoras: Ao consagrar Renan mesmo sabendo
o que ele fez no verão passado, seus colegas deixam o Senado de cócoras
num instante em que o STF corta o baralho e o Executivo dá as cartas. Ao
virar as costas para a opinião pública, o Senado informa que abriga
poucos inocentes em seus gabinetes. Fica entendido que a maioria não tem
apenas telhado, mas ternos, camisas e gravatas de vidro. Ainda não se chegou ao fundo do poço. Mas a turma decidiu continuar cavando. É como diz o senador Cristovam Buarque (PDT-DF): “Já havíamos perdido o poder. Agora, perdemos o pudor.”














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