Faz mais
de 10 anos que o jornalista Antonio Pimenta Neves matou a ex-namorada Sandra
Gomide com uma bala nas costas e outra na cabeça. Horas depois do crime, contou
tudo à polícia e se tornou réu confesso. Em 2006, foi condenado em primeira
instância a 18 anos de prisão, reduzidos a 15 pelo Tribunal de Justiça de São
Paulo. Não cumpriu nenhum.
NOTA DO BLOG: Não é possível fazer reparos numa reportagem com essa, apenas lamentar, a impunidade descarada e abjeta que
reina no Brasil. Creio, porém, que tem muita culpa nossa sociedade, embevecida
com celulares de última geração, tevês de plasma e afins, todos comprados em
módicas prestações que duram alguns anos para serem quitadas. Acorda, Brasil
No
momento, espera em liberdade o julgamento de um recurso encaminhado ao Supremo
Tribunal Federal. O caso está com o ministro Celso de Mello, que não sabe
quando terá tempo de examiná-lo. Tecnicamente, Pimenta Neves não é culpado de
nada: graças às alquimias da legislação e às acrobacias da jurisprudência,
tornou-se inconstitucional tratar um matador assumido como assassino antes que
a sentença transite em julgado.
O cidadão
brasileiro Antonio Marcos Pimenta Neves poderia, se quisesse, ter disputado uma
vaga na Câmara dos Deputados em 2010. Não lhe faltariam simpatizantes,
sobretudo entre colegas de ofício. O público alvo seria alcançado sem
muita despesa, já que a Justiça Eleitoral concentrou o público alvo de
delinquentes candidatos em poucos lugares: agora, a população carcerária se
vale de urnas instaladas nos presídios para cumprir o dever cívico do voto.
Com
alguma lábia e um pouco de sorte, Pimenta Neves hoje estaria festejando, entre
uma conversa no cafezinho da Câmara e uma reunião para tratar da reforma
política, a vitória da turma do prontuário no STF ─ e os nítidos sinais de que
a lei da ficha suja será pulverizada de vez até 2012. A inovação legal torna inelegível
gente condenada em duas instâncias. Isso é inconstitucional, já avisaram alguns
ministros. É preciso aguardar o julgamento doo último recurso na última
instância.
Sandra
Gomide agonizava de costas quando levou o tiro de misericórdia. Nunca mereceu
uma lágrima do seu executor. Para pelo menos seis doutores do STF, detalhes do
gênero são pieguices irrelevantes, coisa de leigos que nem imaginam as
altitudes jurídicas alcançadas por uma toga. A lei só retroage em benefício do
réu, declamariam em coro. O princípio da anterioridade é sagrado, alertariam
aos berros ─ mais de 10 anos depois do assassinato. E todos fingiriam ignorar
que o processo dorme numa gaveta do Supremo.
Nada como
um caso exemplar para encerrar a conversa fiada: caso virasse deputado, Pimenta
Neves continuaria servindo à nação com as bênção do STF e sob as asas da
Constituição. Os pimentas neves que agem fantasiados de pais-da-pátria são cada
vez mais numeros. Há algo de muito errado com um país que torna possível
tamanha afronta à justiça.









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